Reflexões sobre a diferença entre escutar e ouvir, no percurso de estudos de psicanálise, durante a pandemia; ciclo I, 2021.
Alô, alô, está me ouvindo? Pode me escutar?
Para começar a reflexão, o que é ouvir? Segundo o dicionário da língua portuguesa Priberam, “ouvir” significa “perceber pelo ouvido”, “prestar atenção”, “sentir (alguma coisa) pelo ouvido” ou, ainda, “ser dócil a, obedecer a”. É um verbo que pode ser transitivo ou intransitivo, o que significa que não necessita de um objeto para que a ação tenha um sentido completo de compreensão. Ouvimos e pronto. O som da reforma do vizinho, os passarinhos que cantam, os carros passando na rua, a televisão de fundo na sala. No fim do dia, mal lembramos do som das teclas do computador entrando em atrito com o toque dos dedos ou de quantas vezes buzinaram no cruzamento. Todos esses sons passaram por nós de forma passiva, na maioria dos casos sem que houvesse nenhum mecanismo que precisássemos ativar manualmente para acontecer.
O psicanalista, no entanto, substitui o termo por “escutar”, a chamada “escuta ativa”. Qual é a diferença? No referido dicionário, o verbo significa “prestar ouvido a; ouvir com atenção“, “tornar-se atento para ouvir”, “deixar-se guiar por algo” ou, do popular, “dar ouvidos, ou créditos, a”. É um verbo também simultaneamente transitivo e intransitivo, pois quem escuta, escuta algo, ou apenas o faz naturalmente, mas há uma diferença semântica sutil: a escolha. Você pode até escutar por acaso, mas na escuta ativa, você se propõe a fazê-lo. É acionado o mecanismo da atenção, que vai reservar um local para acomodar o que é dito para que seja melhor processado. No fim do dia, é possível que o que foi captado pela escuta ativa ainda esteja em um processo de cocção interno, capaz de transformar quem disse e quem escutou.
“Escutar” é também um termo informal da medicina, verbo com origem no latim, auscultare, que significa “aplicar o ouvido ou o estetoscópio para inspecionar o funcionamento dos órgãos pelos ruídos produzidos; auscultar”. Tal significado remete curiosamente à invenção do estetoscópio pelo médico René Laennec, em 1816, que passou a usar um tubo para ouvir os sons vitais do corpo do paciente para ajudar na investigação de seus sintomas, e, mais tarde, nos estudos sobre a histeria pelo neurologista francês Jean Martin Charcot, que foi capaz de demonstrar, através de sugestão hipnótica, que alguns distúrbios tinham natureza psíquica, não orgânica, como se acreditava na época.
Inspirado por seu trabalho, durante um estágio em 1885 e 1886 no Hospital da Salpétrière, em Paris, Freud decidiu aprofundar os estudos a respeito da histeria, desta vez com a ajuda do neurologista Hippolyte Bernheim, em Nancy, e, mais tarde, com o médico hipnólogo Josef Breuer e sua técnica de conversa. O restante é uma história que continua sendo escrita sobre a Psicanálise.
Durante seus estudos, Freud desenvolveu a técnica da Psicanálise, que tenta alcançar a origem de sintomas através da escuta ativa, que permite que o sujeito se expresse livremente, associando uma cadeia de pensamentos que formam uma trilha de pistas sobre a origem de suas angústias. Aí está o elemento diferencial da escuta psicanalítica: escutar o que é dito, o conteúdo falado, reforçado e omitido, pelos atos falhos e pensamentos reprimidos que pela boca se tornam espontaneamente fugitivos.
Escutar é um ato de investigação e transferência mútua, motivo pelo qual é um grande desafio, pois controlar os impulsos provocados pelas colocações de quem escutamos exige treino de serenidade. Nem sempre o que é comunicado será gentil ou agradável de ser escutado. Por isso, quem se propõe a escutar também precisa já ter se escutado para não se perder na fala do sujeito.
Em todos os casos, é necessário ficar atento aos detalhes, perceber nas ausências de palavras e nas memórias incompletas as resistências como mecanismo de defesa do inconsciente. É também preciso aprender a escutar os sonhos, uma espécie de dicionário mental que o pré-consciente tenta formar a partir do vasto armazenamento inconsciente. Até as conversas banais podem funcionar como mapa simbólico: por que tal fato aparentemente sem importância foi trazido para o presente?
Escutar é abster-se de si, pois além de não podermos controlar o que será dito, também não podemos prever o quanto será dito. A escuta precisa dar conta da verborragia e dos silêncios com a mesma renúncia a desejos, críticas, julgamentos e até as ditas “boas intenções”, entre as quais encontra-se a própria vontade e ansiedade de ajudar o paciente, que pode nos fazer atravessar uma fala importante a fim de formular uma intervenção que acreditamos ser valiosa. O que é realmente valioso na psicanálise é a regra de ouro de Freud: permitir que o sujeito fale a primeira coisa que venha em mente com a certeza de estar em um ambiente seguro, no qual ficam suspensos críticas, julgamentos e até o medo de ser “chato” ou não ser um paciente interessante. Em contrapartida, do outro lado do balcão, é justo aliviar também o peso do analista, que também não deve desejar, especialmente naquela hora de escuta flutuante, tornar-se um profissional interessante ou uma figura de salvação, embora talvez suas motivações iniciais possam partir da vontade de ajudar as pessoas e o próprio paciente às vezes o coloque nessa posição.
Apesar de serem informações fundamentais, essas sutilezas do não-dito dificilmente podem ser realmente escutadas na correria do dia a dia de maneira natural, quando a abundância de sons conflituosos brigam por um minuto de atenção. Mistura-se o que é pensado por dentro com o que é ouvido do “lado de fora”, as fantasias com o concreto presente. Sufoca-se o pensamento com as expressões externas, encobrimos os desejos com memórias. Geramos uma ansiedade raivosa que pode nos tornar surdos e precipitados. É por isso que a psicanálise torna-se necessária, pois nela reservamos um momento específico dedicado à escuta.
No cotidiano, pratica-se a suposta infinita liberdade de expressão e de deixar no mundo sua impressão. Nas redes sociais, queremos falar, GRITAR, em “Capslock”, estampar, com a autoimagem editada e as legendas exibicionistas, mas poucas vezes queremos escutar. Afinal, ler é escutar com os olhos.
Na troca de mensagens, enviadas ao mesmo tempo, conversas são truncadas e entrelaçam temas, interlocutores e receptores, bagunçando os turnos nos quais deve-se ouvir ou falar. Se os grupos virtuais fossem ao vivo, em voz alta, seriam um barulho ensurdecedor de vozes narcísicas muitas vezes expressando o mesmo ponto de vista, mas incapazes de repetir o que o outro acabou de falar.
Presencialmente, o problema torna-se uma competição para quem é possuidor da voz mais forte ou detentor do palanque da estima mais alto para que possa expressar-se por cima do outro, tampouco escutando o que diz ou refletindo como sua mensagem é percebida.
É por esse motivo que, muitas vezes, o divã é um assustador convite a um silêncio por vezes desconfortável, no qual quem nunca fala sente a pressão de dizer e quem não sabe calar poderá sentir-se ameaçado a escutar. O que ambos não percebem é que tal ambiente é um instrumento de escuta, mas não é só o psicanalista que está escutando. Quem fala no silêncio escuta a si mesmo.
O curso de formação em psicanálise propõe um momento de hora clínica, no qual, um psicanalista convidado atua como mediador de um tema proposto. No primeiro ciclo, um aluno traz uma questão e os demais têm um espaço aberto para mutuamente se organizar e expor suas experiências. Conforme avançamos no curso, as questões tornam-se casos, e, aos poucos, o aluno caminha em direção a tornar-se psicanalista. A “hora clínica” é um exercício de escuta, já que as angústias por ver o tempo de aula correndo ou para elaborar sua própria contribuição quando chegar sua vez não são nada além do que acontece no cotidiano, ao lidar com outro ser humano que também tem o desejo de se manifestar e pode ter dificuldade em ouvir, ou de transformar o desejo em palavras.
Talvez os leitores atentos sejam bons de escuta, já que ao ler um livro, estamos diante da impressão de um segundo sujeito, o autor, e, por vezes, de um terceiro, o personagem. Escutar é como ler um livro novo, interpretando as informações que são absorvidas de acordo com o nosso entendimento do idioma ou do tema abordado. No caso da psicanálise, esse entendimento é o mundo interno, e nossa linguagem se traduz na observação de atos falhos, chistes e recalques. Alguns livros são indicados para crianças, outros requerem algum conhecimento teórico específico. O melhor analista para você é aquele que aceita ler aquela sua história singular com a mente aberta, disposto a prestar atenção em seu conteúdo e tentar compreendê-lo. Do contrário, bastaria que o analisando escrevesse seu próprio livro, no caso, um diário, e todas as suas angústias estariam curadas.
Olhar para dentro e organizar a bagunça do lar interno pode parecer simples para quem acredita que tem o controle de si. Porém, se os sintomas foram gerados como maneira de alerta para questões ocultas por autodefesa, como esperar despertar autossuficiência para endereçá-las sem armaduras e espontaneamente? A escuta ativa propõe uma maneira de trabalhar essa faxina de nossa moradia psíquica, tentando reorganizar nossas gavetas, tirando o pó do armário, desconstruindo as pilhas de antiguidade que tentam esconder sentimentos e passado.
Em tempos de pandemia, quando a loucura do mundo externo entra e se tranca em casa, o sujeito que via a seu dispor inúmeras distrações e ruídos que o impediam de se escutar de repente se encontra em um divã particular no sofá da sala, confinado em seus próprios medos, inseguranças e traumas. No silêncio solitário, ainda que acompanhado, do isolamento, o medo e a calamidade pinçam sensações e memórias que obrigam um enfrentamento do desconhecido do futuro e do que há no interior. As faltas são mais percebidas, porque não nos bastamos como interlocutores. Quando nos reunimos virtualmente, antes de falar quase sempre perguntamos, apreensivos, testando nossos dispositivos e o dos outros: “Estão me escutando?”. Buscamos em uma das muitas telinhas de vídeo pelo menos um balançar de cabeça, um sinal de que no meio daquela dezena de estranhos conhecidos em seus ambientes informais há alguma chama de pessoalidade, um aceno que demonstre que alguém atendeu o seu chamado para ser escutado, como quando ligamos para alguém e esperamos uma confirmação de que a chamada foi feita com sucesso e não falaremos com uma caixa postal. “Alô? Alô.”
Sentimos falta do acolhimento e dos abraços, mas, acima de tudo, de alguém que dê ouvidos, ou seja, que empreste sua atenção para nossas aflições. Afinal, escutar é acolher, abrigar um pouco do outro em si e oferecer um lar para o pensamento, um colo para a criança interna e uma certeza de normalidade e da própria humanidade de quem fala. Quem escuta aceita reconhecer a existência do outro, acaba involuntariamente encontrando nele um pouco de si e desenvolve a habilidade de abdicar de seus juízes momentaneamente para viver por alguns minutos sob o sentir alheio. Então, em determinado momento, apenas permitir-se navegar pela experiência do condutor daquela embarcação tão única chamada vida.
Referências bibliográficas:
QUINODOZ, J.M. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Porto Alegre: Artmed, 2007.
OUVIR, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/ouvir. Consultado em 11/05/2021.
ESCUTAR, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/escutar. Consultado em 11/05/2021.
Imagem: Franco Antonio Giovanella

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