Reflexões sobre a Publicidade redes sociais, fama, influencers durante percurso de estudos de Psicanálise; ciclo II.
A busca pela felicidade do ser humano, segundo Freud, traça um caminho cuja finalidade é a satisfação. Para que possamos continuar caminhando pela vida, a satisfação nunca é plena. Sempre haverá uma falta para que continuemos seres desejantes capazes de mover pulsões alternantes e motivando nossa existência. Afinal, nossa única satisfação plena talvez seja apenas no momento que ainda estamos em gestação no útero, tendo nossas necessidades supridas pelo corpo de nossas mães. A partir do rompimento do cordão umbilical, há a primeira dor na quebra desse elo automático de satisfação e começa um tortuoso caminho em busca de um prazer perdido.
Esse caminho fica ainda mais complicado na medida em que a sociedade facilita a disposição das ofertas de possíveis desejos e opções de escolha. Em era digital, nos deparamos com uma série de ofertas de estímulos estampados em gritantes propagandas, que expandiram seu alcance das ruas para a palma da mão através do celular.
Nossa sociedade desejante e vazia sentiu a necessidade de ofertar uma promessa de satisfação de desejos, até mesmo aproveitando-se da característica da sensação de falta para transmutar as necessidades e desejos em objetos sólidos e específicos, por vezes objetivamente inúteis ou supérfluos. Ora, se a busca pela satisfação motiva o ser humano, deveríamos estar mais felizes por ter mais chances de satisfazer-nos. O problema é que sempre que pensamos estar satisfeitos com algo, descobrimos que não estamos mais felizes do que antes, porque desejamos algo melhor, ou simplesmente novo imediatamente após a conquista, sem descanso e sem mesmo conseguir aproveitar aquilo que tanto parecia essencial para a nossa felicidade. Assim podemos observar simplesmente ao pensar que do leite materno partimos para alimentos pastosos, sólidos, então exóticos, gourmetizações do simples, a procura por ingredientes raros, o desejo em experimentar a comida do outro país, ou feito por mãos mais exclusivas com certificados de habilidade. Com o celular, todas essas possibilidades se abrem automaticamente, acessadas por um leque tátil e sedutor. É um universo inteiro de ofertas daquilo que não tenho e experiências não exploradas mostradas de uma vez, o que prejudica o ritmo de alternância das pulsões. Queremos tudo, ao mesmo tempo e para já. Digo, para ontem.
Quem quer correr o risco de ficar para trás e descobrir que o Outro já tem o que eu queria e não sabia até este momento? Quem sou Eu se o Outro tem mais? O ter ganha significado de ser, pois a isso são atribuídas palavras pela Publicidade: tenha isso para ser aquilo.
À espreita e bem esperta, a Publicidade encontra seu campo fértil, pois onde há desejo, há vontade de consumir, portanto, há espaço de propaganda. Quem não sabe o que quer pode ser convencido a querer o que eu tenho a oferecer. Assim chega uma demanda para os departamentos segregados das agências cada vez mais bem equipados com ferramentas capazes de prever os desejos de perfis específicos de clientes, bem como sua “jornada de consumo”: qual é o caminho da satisfação de desejo daquela pessoa de idade, gênero, poder de compra e até estilo musical específico? Como podemos fazer para que mulheres de 20 a 30 anos passem a se interessar por nosso carro novo? Como convencer aquele homem de 50 anos a experimentar um produto de beleza? Sentimos que o público jovem não compra nossa arca, como podemos convencê-los de que agora ele precisa de nós para avançarmos nessa nova geração de consumidores?
É uma fábrica de captar no ar uma angústia coletiva e transformá-la em desejo de compra. Quando o público começa a perceber e reclamar que estava comprando produtos indicados a mulheres porque alguns homens disseram que era bom para elas, a Publicidade reage automaticamente e cria departamentos da diversidade. O público detesta aquela celebridade? Sem problemas, nossa marca também não gosta dela. Seu desejo é uma ordem, contanto que concordemos em comprar. Assim fica criada a sensação de que a pessoa está no controle de deslocar aquele desejo para um produto específico. Conforme essas discussões são levantadas e difundidas pelos próprios consumidores, surgem modelos diferentes de propaganda, com filmes premiados, e emocionantes sobre o bem estar coletivo, dizendo que você deve fazer o que realmente importa, desde que o que te importe o faça comprar o produto no processo.
O ser desejante vira “o consumidor”. A publicidade incita que para preencher aquela sensação de falta impreenchível, basta que possuamos este ou aquele objeto — desde que seja o da minha marca, “feito para você”. Às vezes sugerem em anúncios coloridos e imperativos a compra de produtos tão banais que um afastamento emocional sob ótica analítica os colocariam na categoria do descartável, mas por terem neles estampadas marcas posicionadas em conceitos de luxo, a eles são conferidas status mais prazeroso de pertencimento a determinado grupo de “vencedores”. Quem é vencedor? Aquele que parece mais feliz na foto da rede social.
Uma multidão de adultos passa a venerar uma série de demonstrações fálicas mais potentes, mais rápidas e mais caras. Cultuamos a cervejinha no fim de tarde, o docinho para acalmar a TPM, o autocuidado caríssimo porque “eu mereço”, o cigarrinho que pode matar e causar impotência, mas aquela propaganda me passou uma sensação de poder e conforto oral. Mereço porque sofro, mereço para me confortar pela realidade frustrante, ou correr o risco de ser interpretado como um perdedor, um ser infeliz e falho. Preciso ser um vencedor ao olhar do Outro.
Causou espanto uma matéria1 do UOL TAB de junho de 2021 sobre o grupo de pessoas que usa chupeta e fralda para aliviar o stress. Prontamente, houve uma rejeição a esse movimento de regressão explícito, sem perceber que, no fundo, há uma criança em cada um dos críticos mais agressivos, com medo de que alguém descubra que o próprio usa suas fraldas nas fixações anais controladoras, a chupeta no cigarrinho ou precisa de uma figura de autoridade, por vezes onipotente, para autorizar suas ações ou puni-las com o castigo do inferno.
São dores que precisam ser escutadas, mas por vezes são caladas, pois na ditadura da felicidade e dos treinadores de sucesso e positividade gratiluz não existe espaço na falta, porque estamos todos preenchidos com recalque para conter a angústia e substituir com um sorriso, um objeto transicional de adulto e uma atitude positiva. Uma vizinha de uma filha enlutada deu o seguinte conselho: “Dê um sorriso, ninguém gosta de gente negativa”. Então é melhor recalcar sua tristeza e, aí sim, transformá-la em sintoma, não porque as pessoas estão preocupadas com o bem-estar coletivo, mas porque ninguém deve perceber que você está infeliz. Ninguém gosta de gente infeliz ou “esse ninguém” apenas não consegue lidar com a própria infelicidade e por isso não aguenta vê-la no Outro, pois reflete no Eu? Ninguém quer te ver infeliz ou se estiver focado nisso não poderá sublimar essa pulsão em consumo ou produção em massa?
A mãe pergunta ao filho cabisbaixo: “O que você tem?”
O filho responde: “Quer saber a verdade ou quer ficar feliz?”
Sem hesitação, ela diz alegre, enquanto lava louça: “Quero ficar feliz”.
O contato com a dor, seja do outro ou o quanto de dor a dor do outro nos causa, é tão aterrador que às vezes é melhor esconder-se naquilo que Winnicott chamou de “falso self” do que admitir que talvez não esteja tão alegre e correr o risco de enxergar-se a partir de um espelho que pode carregar uma imagem para a qual não é possível sustentar o olhar.
A imposição de constituir uma fantasia de felicidade gera um esforço coletivo para exibir-se conforme o status quo de bem-estar no desfile da alegria. O problema é que a ditadura da felicidade não está preocupada com a felicidade propriamente dita de ninguém. O bem-estar é o aparente na frente da câmera, é de corpo físico, do fisiculturista, os bombados, dos cheios de filtro, é daquele guru vendedor de conquistas imediatas, o professor do sucesso e da beleza.
Tudo isso porque as pessoas têm que perceber que me cuido. Se isso vai me deixar mais saudável de fato, é um problema meu. Se eu estou pulando refeições para ter a barriga chapada, é um problema meu. Se eu choro depois das minhas lives, é um problema meu. Ninguém pode saber, mas eu propago essa ideia para que recupere a minha auto-estima perdida na comparação com o outro, para que outros me tomem como ideal e persigam o mesmo caminho penoso, em segredo.
Por que tudo isso? Ora, somos o resultado da interação com o outro. A constituição do nosso narcisismo primário depende de investimento de amor dos pais ou tutores. Depois, fica a cargo de uma comparação constante de qual é o requisito para podermos ser amados. Se a sociedade está demandando alegria, positividade e consumo, para que eu me encaixe preciso fazer tudo isso e ser parabenizado com amor traduzido em um coração literal de Instagram e quaisquer redes sociais que surjam além. Se o que ganha curtidas é fazer vídeos dando sustos em crianças, pouco importa o trauma que causarei na vida real em nome do coração virtual.
Para ser amado, temos as autodenominadas figuras de autoridade no campo da felicidade plena, que são desde gurus até os modelos de existência perfeita, que fazem recortes da vida muito bem selecionados, literalmente filtrados, maquiados, e tão enérgicos e felizes que até dançam como se ninguém estivesse olhando para expressar toda e qualquer ideia. Essa realidade simulada, às vezes minuciosamente coreografada como um musical da Broadway, manda um recado: se você não é assim, se não está feliz como eu, então está vivendo errado. O problema é você.
O contato com a perfeição do outro fatia o nosso narcisismo. Se o Outro é o ideal, então, na comparação, Eu deixo de ser. No mundo virtual, essa retaliação narcísica parte de lâminas em nível global. Meu mundo deixa de ser meu pequeno círculo e se torna, literalmente, o mundo inteiro. Quem consegue ser um eu ideal, quando Sua Majestade, o Influencer está roubando todo amor que eu poderia ter? Ele é mais famoso, o que implica em ser mais amado, literalmente ganhando mais corações. Quando é feita a reflexão do motivo, são encontradas respostas fáceis reforçadas pelas publis: porque é mais bonito, mais rico, mais talentoso e popular do que eu. Spoiler: às vezes, ele só corresponde melhor às projeções coletivas do padrão social do momento, ou tem escolhido melhor a parte que deseja mostrar.
Só sobrevive incólume na internet quem é capaz de continuar investido libidinalmente de si mesmo o suficiente para continuar em uma ilusão primária ou quem tem recursos para pensar que está próximo do ideal de eu em algum aspecto da vida. O problema é que a internet, abrangente como é, tem uma vasta gama de influencers que são melhores que você em qualquer área possível. Ou seja, você nunca será bom o bastante em comparação com todo o mundo. Uma entre bilhões de pessoas certamente é mais habilidosa em cozinhar, tocar um instrumento ou passar delineador, tem uma família maior, mais dinheiro e é aparentemente mais feliz do que você.
Com as redes sociais, não estamos mais em contato com uma bolha parental ou em microuniversos de escola ou trabalho. Até pelo algoritmo que cerca o usuário por áreas de interesse, você obrigatoriamente está em contato de comparação com o mundo naquilo que você mais se identifica. O professor de idioma, o cantor profissional, até o advogado mais experiente estão diretamente ferindo aquilo que você mais ama. Mesmo que você seja o perfeito padrão de beleza brasileiro, quando descobrir as atrizes sul coreanas, vai perceber que não é o mundo inteiro que o acharia o mais belo.
Por outro lado, como toda relação ambivalente, essa variedade também possibilita que pessoas que seriam excluídas por características fora do padrão possam identificar-se em nichos específicos, trazendo um tipo de sensação de pertencimento que gerações anteriores não puderam experimentar. Todos podem encontrar alguém parecido e formar um grupo, o que gera uma discussão que aqui não cabe.
Nesse ringue de “eus”, quanto mais feliz quer se fazer parecer, mais angústia se cria, e a briga é ainda mais injusta entre o público comum e os famosos. Os influencers viram uma espécie de “bebê da internet”, cujos fãs atuam como pais ou amantes apaixonados que idealizam e idolatram aquela criatura, que pode até não ser a mais bela ou talentosa, mas torna-se “rainha”, “perfeita” e que “não erra nunca”. Uma relação muito parecida ao bebezinho com cara de joelho que é a personificação da beleza do Olimpo com o cérebro de Einstein ao encaixar um bloco retangular no brinquedo. Com vocês, Sua Majestade, o Influencer: seus tuítes são sempre cheios de verdade, sua voz é de passarinho, seus textões, um poema, suas lágrimas, uma declaração de guerra ao ofensor. Vamos cancelar todo mundo, desde que não seja quem é mais parecido comigo, que tem um pedaço de mim, meu famoso-falo.
Será que, sabendo que não podem competir com os atributos extraordinários de tal pessoal, os fãs usam da identificação para se realizar através de seus famosos de estimação? É como um parente que sonhava em dançar balé e se realiza através das apresentações dos filhos, ou que compra o autorama para que o próprio possa brincar.
Já que nunca podemos ser o padrão da internet, o influencer vira o mais próximo de ideal que eu jamais chegarei e me convenço a ser feliz ao permitir que ele viva o sonho que eu estou longe de realizar. Não é surpreendente, então, a fúria que acomete uma horda de fãs ao ser ofendida através de um alvo em seu artista preferido.
Em contrapartida, os haters se alimentam da identificação projetiva. Tudo que há de horrível não está em mim, mas no outro. Minha frustração ao não atingir o ideal me faz querer destruir o outro, apontando suas falhas para que eu não seja mais tão distante dele assim, ou meu amor voraz, para que eu queira me tornar o outro.
A Publicidade mais uma vez se aproveita disso e injeta o desejo de consumo em uma promessa de fusão entre influencer e fã através de um objeto. No entanto, quando compramos os objetos que os influencers indicam, só teremos uma fatia do que os constitui, às vezes, somente para aquela única foto, pois a marca de preferência é, na realidade outra.
Esse olhar externo prejudica o interior. Enquanto assistimos aos stories brilhantes, cheios de aparentes satisfações do outro, deixamos de lado o que tem por trás de um feed tímido e pouco glamouroso de redes sociais: a nossa vida. Horas reais se passam enquanto o carrossel da vida que o outro supostamente está vivendo me atravessa de um jeito que me paralisa. De repente, passei o dia todo apenas desejando ser, mas não sendo coisa alguma.
O influencer que admiro talvez tenha características minhas, que eu amo em mim, assim como aquele que mais detesto também tenha meus defeitos. Nós somos a combinação de ambos. Talvez uma chave para voltar esse amor para si seja identificar o que há de positivo no outro que também há em mim e como a diferença nos torna seres que desejam coisas distintas.
O mais difícil talvez seja perceber que a falta também é presença e que a busca para preenchê-la é a jornada individual. Vá curtir a foto, sim, só não esqueça de curtir, também, seu próprio mundo interno e escutar as suas dores. Com exceção do bebê e os instituídos pelos sistemas de monarquia, ninguém mais é majestade ou feliz o tempo todo. Nessa tentativa de encontrar uma solução, penso que já que a conexão, em ambos
os sentidos, com o mundo hoje em dia é constante, talvez o melhor caminho seja o de tentar frear nós mesmos a partir das próprias ferramentas digitais. Notificações nada mais são do que pedidos de atenção imediata. Aplicativos funcionando em repouso ainda são escutas que estamos fazendo passivamente. Mensagens que são enviadas de madrugada não precisam ser respondidas. A palavra que me atravessa pode ser trabalhada. O código de programação que constitui todos os programas é feito de letras, de números e palavras organizados de determinada maneira. É uma Linguagem que precisa ser entendida e escutada. É preciso lembrar que foi o homem quem programou a máquina, antes que a máquina programe o homem.
Referências
1 SIMIONATO, Letícia. Adulto de Chupeta. UOL, 29, jun. 2021. TAB. Disponível em: https://tab.uol.com.br/edicao/regressao-infantil/. Acesso em: 29, jun. 2021.
imagem: Alice Donovan Rouse

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