Reflexões sobre a estrutura da cultura de fãs que se organiza no mundo do K-Pop; durante percurso de estudos de psicanálise. Ciclo III
Há anos o k-pop, um termo abreviado para “pop coreano”, é responsável por movimentar bilhões de dólares na Coreia do Sul, encantando gerações e expandindo para o ocidente, com shows inclusive no Brasil e participação de membros com discursos sobre saúde mental na ONU. Como se organiza a estrutura da indústria e quais hipóteses a Psicanálise poderia trazer sobre esse fenômeno?
Para contextualizar, o k-pop é um movimento cultural sul coreano que surgiu nos anos 90, década seguinte à luta pela democratização do país. Surgiu como uma oposição direta a um momento de nacionalismo da Coreia do Sul, que na época incentivava músicas em ode ao governo.
O grupo masculino Seo Taiji Boys foi o pioneiro do K-pop, em 1992. Inspirado no Hip Hop norte-americano, trouxe conteúdo e estética revolucionários para a época no país, “destituindo” a lógica patriarcal que tinha o presidente como detentor do falo para propor uma possibilidade de circulação de poder entre os jovens. É de se imaginar, portanto, o motivo pelo qual uma geração inteira de adolescentes coreanos passou a admirar e seguir o estilo.
Os rapazes traziam visuais de um Grande Outro bastante admirado no mundo por sua suposta posição de desenvolvimento: os EUA. Com calças baixas, cabelos estilosos e tênis-lancha, os cantores carregavam consigo uma espécie ambivalente de sedução: um grande outro ameaçador, porém admirável e sensual. Por si só, um tabu, criticado por uma bancada conservadora tanto quanto era amado pelo público geral.
A partir deles, surgiu uma onda de grupos com bandeira pop e, junto a eles, a cultura fandom de idolatria: grupos de fãs até se apossavam de cores específicas que representavam seus amados por meio de faixas, lanternas neon e uniformes. Era um verdadeiro tabu que outro grupo usasse daquela cor em sua comunicação visual. Hoje por exemplo, os fãs de BTS se autodenominam “proprietários” da cor roxa e do emoji de coração lilás do Whatsapp, possuindo até a expressão em coreano “borahae” (Eu “roxo” vocês). Tal fato causa diversas pelejas virtuais por parte dos fãs mais aficcionados, que rechaçam o uso tanto do emoji quanto da cor, embora tal atitude seja um tabu e gere represálias até mesmo dentro da própria organização organicamente regulada pelos fãs.
De lá para cá, muitos desses ritos foram preservados ou atualizados, de modo que podemos analisar padrões dessa micro-sociedade específica. O k-pop surgiu como tabu, criticando a posição patriarcal de liderança da época. Simbolicamente, esse movimento mata o grande Pai castrador e empodera seus filhos. Pouco a pouco, o grupo se desfaz e alguns de seus membros fundam as próprias empresas, tornando-se, eles mesmos, a nova lei que ditará as tendências musicais e comportamentais do país, determinando novos tabus e regras a serem seguidos e temidos.
A cultura coreana desloca a idolatria messiânica ao governo para a idolatria a um outro objeto, no caso, um ideal centrado na figura de um artista. Os membros dos grupos de k-pop são chamados de “ídolos” e sua música, no idioma original, é chamada de “música de ídolo”. Tal ideia vem de um conceito de idealização atribuído a esse integrantes e lembra bastante o segundo tempo do édipo de ser o próprio ideal.
Para entender essa concepção de ideais manualmente lapidados dos músicos do k-pop é necessário primeiro saber que um grupo é constituído por trainees, pessoas que foram selecionadas a dedo e treinadas por uma empresa, divergindo da lógica de amigos que se cruzam e decidem fazer música organicamente. Outro fator importante é que as três maiores empresas são lideradas por integrantes de grupos precursores do gênero (por exemplo, Yang Hyun-suk, foi integrante do Seo Taiji Boys supracitado e tornou-se chefe-executivo da YG Entertainment, que produziu o atual grupo feminino mais famoso do planeta, o Blackpink).
Dentro disso, podemos observar que um idol, que outrora era objeto de desejo e um tabu por si mesmo, ascendeu para uma posição fálica, que ficaria no topo dessa cadeia hierárquica do k-pop: o Pai responsável por ditar as regras, os comportamentos dos “filhos” que irá criar, bem como interceder, punir e vigiar.
A empresa é responsável por decidir todas as diretrizes e leis que devem reger seu futuro grupo. Para começar, deverá possuir um “gênero”, um conceito que estará intimamente associado não apenas ao estilo musical, mas ao comportamento, aparência e impressão que deverá causar. Por exemplo, um grupo feminino com conceito fofo deverá ser delicado, jovem, usar figurinos com cores claras e suas integrantes devem parecer virgens, sendo proibidas de fumar ou namorar. Para tal, uma grande equipe é envolvida e as idols passam por aulas de etiqueta e são vestidas de maneira a combinar com o ideal imposto.
Os ídolos são como filhos-falo da grande empresa Pai: carregam consigo uma missão de preencher a falta de uma sociedade, resgatando comportamentos ilibados, da “boa moral e costumes”, bem como um padrão estético de magreza e pele com textura sedosa (e clara) garantindo a venda de uma indústria de cosméticos.
O trabalho é tão impecável que, ao serem divulgados para o mundo em seu debut (lançamento), os valores da marca do grupo são percebidos como verdade e um ideal a ser perseguido. A relação simbiótica entre fã e ídolo desses filhos-falo é quase como a do bebê e sua Mãe. Um precisa do outro para existir e todas as canções de amor daquela maioria de cantores que é proibida de namorar são destinadas ao Primeiro Amor, a Mãe-fã, que chora nos shows e acredita naquele amor infinito e preenchedor de suas faltas.
Podemos pensar também no próprio conceito psicanalítico de se apaixonar, no qual o apaixonado confere, assim como a Mãe ao bebê, toda sorte de qualidades.
Há também um exagero desse amor, em casos de perseguidores, os chamados “sasaengs”, que podem até ficar convencidos que estão em um relacionamento real com aquele “personagem”, chegando a ameaçar a integridade física do artista com a fúria ciumenta de um amante.
Se no primeiro momento os ídolos são Sua Majestade, Meu Bias (termo utilizado para designar seu membro favorito dentro de um grupo) — perfeitos, lindos e talentosos, ainda que uma análise objetiva não chegue sempre à mesma conclusão —, em outro momento, os fãs, na base da pirâmide, possuem olhos auxiliares do Pai, responsáveis por ajudar a delatar, vigiar e punir os membros caso sejam flagrados com um cigarro na mão ou tendo uma opinião política controversa.
Se qualquer uma dessas regras tabu for infringida, o ídolo corre o risco de tornar-se o próprio tabu, podendo ser expulso de sua empresa, ter o falo da admiração subitamente arrancado de si pelo cancelamento e forçado a uma não-existência temporária, escondendo sua imagem durante o processo de cancelamento seja por punição de um “deus maior” (no caso, sua empresa, o grande Pai, com contrato), ou dos próprios fãs agindo como uma mãe de mitologia grega a devorar seus filhos em fúria ciumenta.
Como toda ambivalência, seria míope citar o funcionamento da indústria somente como uma espécie de novo mal-estar da civilização, pois tal modelo consegue também introjetar e produzir exemplos positivos do ideal perseguido. O grupo mais famoso do planeta atualmente, o BTS, possui um “exército” (fazendo uma brincadeira com o nome dos fãs, ARMY) de fãs que, imbuídos dos valores transmitidos pelo grupo — que prega respeito ao próximo, autoestima e saúde mental —, fazem trabalhos de caridade ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, os mesmos ARMYs que lotaram o Allianz Parque, doaram para causas de queimadas no Pantanal e enchentes no país, por exemplo. A influência direta do grupo seguida de exemplo pode ser ilustrada quando o BTS doou 1 milhão de dólares para a campanha de BLM (Black Lives Matter, Vidas Negras Importam) e foi seguido por seus fãs, que se organizaram para bater a meta de valor — o ideal de valor simbólico atribuído à causa, se quisermos brincar com palavras.
Tais exemplos mostram como as figuras dos ídolos transcendem a música e ganham aspectos mais parecidos de uma sociedade totêmica. Para começar, a própria denominação de grupo — não “banda”, já que não há instrumentos sendo tocados pelos membros — já confere aos artistas uma característica semelhante a um clã, no qual os membros daquela pequena sociedade desempenham algumas funções. Por exemplo, há o papel de líder, que é a pessoa responsável por intermediar conflitos, aquele que deve ser respeitado e seguido. A hierarquia funciona, em geral, por uma questão de idade, no qual o mais novo (que automaticamente ganha o cargo denominado “maknae”, responsável geralmente por ser o mais inocente) deve respeitar o mais velho, sendo um tabu fazer o contrário. Há também uma sutil questão de incesto que pode ser comparada aqui, já que embora os membros sejam proibidos de namorar, faz parte do chamado fanservice fazer demonstrações de afeto físicas ou não para incitar os fãs a criarem fantasias de que aquelas pessoas namoram entre si, sem que isso jamais saia do campo do imaginário.
Muitos fãs são envolvidos de maneira tão passional e em estágios comparáveis a delírios fálicos-narcisistas que esse sujeito que sobe aos palcos se torna o falo, pode tudo, e torna-se o todo, e tudo. É completo e também os completa em suas próprias faltas. Através dele, o fã pode viver um momento nostálgico no qual era o falo de alguém, até ser castrado. A figura do ídolo parece possuir aquilo que foi perdido e que é o falo mais desejado ditado pela cultura. Ele é o próprio ideal.
Outro aspecto interessante a ser observado é a competição, já que ao termos uma gama variada de grupos que supostamente são o ideal, é inevitável que exista uma disputa não apenas material orientada ao lucro, como subjetiva e moral sobre quem atingiu mais perfeição do que o outro.
Ainda que o sucesso dos grupos de k-pop signifique um aumento no interesse pelo idioma e a cultura coreana como um todo, bem como movimentação de moeda e chegada de turistas, a indústria de k-pop é, primordialmente, capitalista, e as grandes empresas competem entre si com seus produtos (os grupos) por números e resultados. Além disso, todas as “Mães” de seus pequenos membros da realeza acreditam que seus ídolos O escolhido, ou, como os próprios colocam em discussões calorosas na internet, aquele que “pavimentou o caminho” da popularização da música coreana no ocidente.
Assim, surge uma guerra de egos e ideais, comparações entre quem é detentor do falo, o “mais ideal dos ideais”, criando um fenômeno natural da ambivalência: além dos fãs, há a cultura do anti-fã, os haters. Esses agem conforme uma lógica paranoide kleiniana: quando atacam o que é bom, aquilo perde o valor.
Não seria exagero comparar a relação do fandom com idols com uma relação amorosa, já que as músicas possuem tal propósito. Para os fãs, seus ídolos são o próprio eu ideal. Não havendo espaços para qualquer tipo de comparação. Porém, para ambos os lados permeia a inveja, um desejo iminente de tomar títulos nacionais de prestígio, como, por exemplo, “A irmãzinha da Nação”, “O primeiro amor da nação”, nomes reais conferidos a artistas famosas como símbolo de sua representação para a sociedade.
Falando em símbolo, temos um grande símbolo fálico (nesse caso, literalmente, já que o objeto geralmente possui esse formato) nas lanternas para shows, os lightsticks. Esses artefatos são utilizados como forma de demonstrar amor ao ídolo, já que pulsam conforme a música por estarem conectados via bluetooth com a mesa de som do show, e um protesto magoado do público poderia causar um apagão dessas luzes, o chamado “Oceano Escuro”, quando os fãs comunicam seu descontentamento ao apagar as lanternas ou evitam cantar partes específicas de um membro cancelado. Para o fã, é também uma maneira de sentir-se parte dessa sociedade, que também possui seus próprios tabus e regras.
Cada grupo de fãs possui um nome específico que os designa, bem como comportamentos inaceitáveis. Por exemplo, espera-se que um fã “legítimo” goste de todos os membros do grupo. Caso contrário, será chamado de “only stan”, e sofrerá represálias de toda a comunidade de fãs por apenas gostar de um ou excluir algum membro. Há dezenas de nomes que permeiam essa cultura interna, como as “chart fans”, que são fãs que se comprometem a comprar álbuns, fazer streaming de músicas e videoclipes para atingir metas para seus ídolos. Todos esses rituais repetitivos tornam um fã “mais fã que outro”, e, assim como os grupos competem entre si, alguns fãs também se denominam mais merecedores de amor do que outros.
Entre os tabus de fãs estão: não incomodar durante as folgas, não compartilhar imagens vazadas, não invadir a privacidade dos ídolos e não apoiar pessoas que falarem mal do ídolo. As regras são tantas que não é exagero comparar com um ritual de iniciação assim como na sociedade totêmica. Muitos desses tabus dão conta de realizar fantasias secretas, como invadir um quarto de hotel ou tirar uma foto em momento de descanso, porém, aquelas com uma estrutura mais perversa que o realizam sem culpa são tão perseguidas quanto possuem conteúdo consumido em segredo (como fotos raras). O tabu expia e realiza.
Recentemente, uma foto de um integrante do BTS fumando nos bastidores dos Grammys foi sumariamente proibida na comunidade de fãs, porém, a grande maioria a viu e/ou a divulgou, o que por si já se tornou um tabu.
Colocam-se vários tabus em volta do idol, que está no topo dessa cadeia, para evitar que ele seja tão livre. Toda agressividade também se conserva nesse tabu e nesse isolamento. É uma ambivalência que vale tanto para os ídolos quanto para seus fãs. Ninguém está a salvo. Ao mesmo tempo que o ídolo está no pedestal, associado ao sagrado, ele corre o risco de se tornar impuro ao entrar em contato com um vício mundano como o cigarro. A reação a uma atitude simples como essa se torna desde um apoio fervoroso, até um anúncio dramático de repulsa e decepção ao ter seu ideal quebrado.
Ao entrar em contato com as regras impuras e “permissivas” do ocidente, o sagrado oriental se arrisca o tempo todo a quebrar, principalmente quando passa a ser olhado, julgado e amado por uma visão dos fãs ocidentais. Por outro lado, ao começar a fazer parte também do ocidente, os tabus daqui que eram inimagináveis na Coreia do Sul acabam invadindo essa lógica. Por exemplo, o tabu da apropriação da cultura, que era ignorado até então por idols usando dreads ou com coreografias fazendo alusão indígena.
É possível que nesse contexto, no futuro o k-pop tenda a metamorfosear, adquirindo um aspecto de quimera totêmica, tentando tornar-se sagrado e ideal para ambas as sociedades, de uma maneira mais plural, mas ao mesmo tempo, ficará mais exposto, com falhas mais evidentes e cada vez menos capaz de ser tida como ideal tão homogêneo. A próxima geração de ídolos provavelmente virá para destituir os atuais mais famosos, tentando quebrar seus tabus e refazendo o ciclo, assim estabelecendo novas regras e novos padrões de cancelamento.

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