Trabalho escrito para o Ciclo IV do curso de Psicanálise. Fiquei inspirada ao ter contato com a psicanalista Viviana Senra Venosa em um seminário clínico e, depois, em um debate. Ela tem uma tese maravilhosa sobre o tema: “O “Ato de Cortar-se”: uma investigação psicanalítica a partir do caso Amanda e do caso Catarina“.
O masoquismo era um enigma até mesmo para Freud, enquanto estudava o princípio do prazer. Em seus textos sobre pulsões de morte e de vida, concluiu que a autoconservação e a libido são indissociáveis. Então o que fazer quando há prazer no desprazer? No masoquismo há a erotização da própria destrutividade, o que intrigou Freud no início, pois do ponto de vista econômico do princípio do prazer, segundo suas primeiras teorias, não haveria um rebaixamento de estímulos ao causar a dor em si mesmo e, portanto, não deveria haver prazer ao fazer isso, pois como sobrevivência deveríamos evitar a dor.
Como escutar, então, a dor que é causada como um ato do próprio sujeito acompanhada de uma fala de alívio? Para o autor Benno Rosenberg, em seu livro “Masoquismo Mortífero e Masoquismo Guardião da Vida”, o masoquismo é “o que nos permite continuar a suportar os sofrimentos e as misérias da vida”. Por esse ângulo, que Freud logo atualizou sua teoria, uma dor pode ser, sim, prazerosa, ou ser uma força contrária à pulsão de morte.
Sendo assim, ao contrário do que se pensa no senso comum, cortes e autoagressões em alguns casos podem funcionar como uma força contrária, para tentar eliminar e atenuar a excitação da dor que o sujeito carrega previamente, essa, sim, vinda da pulsão de morte. Isso explicaria por que algumas pessoas relatam não sentir dor no ato de cortar-se, pois seria uma força trabalhando contrária à dor psíquica, não necessariamente gerando um prazer, mas trabalhando justamente para uma pulsão ser neutralizada.
Este texto tem como objetivo levantar essa e outras hipóteses sobre o ato de causar ferimentos a si mesmo e como escutá-los na clínica. Hipóteses, no plural, pois diferentemente das patologias, a escuta da popularmente chamada de “automutilação” é, como qualquer outra, singular ao sujeito, e não pode ser categorizada fazendo generalizações, como é o caso, por exemplo, da restrição da idade ou de gênero, quando o ato é atribuído somente a adolescentes ou a um grupo feminino. A partir daqui chamarei tais atos de “cortes”, como um símbolo para represetar todo tipo de ferimento realizado propositadamente contra si, como quaisquer tipos de arranhões, queimaduras, golpes, entre outros.
O ato é composto por escolhas, conscientes ou não, tão singulares que é possível até mesmo separá-las e analisá-las uma a uma, para compreender a expressão da dor em si mesma. Escutar o ato de cortar-se é remover a embalagem de pasteurização social que tenta rotulá-la como doença, em uma tentativa de tratá-la, saná-la e vedá-la, muitas vezes em favor do sofrimento de quem a escuta em transferência negativa — não do analisante. Se o analista cede à própria angústia diante do horror do outro, pode tender a ensurdecer-se ao ouvir uma fala chocante em formato de cicatrizes, na tentativa de autopreservar-se, tendo sido afetado ali como sujeito.
Afinal, como despatologizar a tal da “automutilação” e trazê-la para o campo da psicanálise, enquanto objeto de escuta? Penso em alguns caminhos. Em primeiro lugar: se assumirmos que o corte é uma maneira de comunicação, um símbolo concreto de algo que está no inconsciente, todos os aspectos que o fazem tomar forma podem ser um caminho de escuta.
Por exemplo, o ato é realizado escondido dos demais? Se é na presença de alguém, quem é esta pessoa e o que representa para o analisante? Por que o sujeito tentaria comunicar algo para essa pessoa e por que não pode fazê-lo em fala? No caso de ser escondido, por que a dor do sujeito precisa ser contida e oculta?
O “onde” é igualmente importante. Em que parte do corpo é realizado o ato? Tal membro possui alguma relevância na história do analisante? Por que marcar a área específica com essa impressão do inconsciente? A região do corte fica exposta ao público? O uso de camisetas de manga comprida, por exemplo, pode ser uma forma de escolher mostrar, ou não, a dor; revelar, ou não, aquele “segredo”, aquela dor registrada quando quiser, conferindo uma espécie de poder ao sujeito sobre a dor que sente. O porquê apenas o próprio pode revelar.
Quando começou e quando geralmente sente vontade de realizar o ato? Qual foi o momento que trouxe o ímpeto de realizá-lo? Um corte pode ser impulsivo, um momento de acting, no qual o sujeito transforma os pensamentos negativos em autoagressão. Como seria um movimento regressivo, a manifestação se daria no corpo, voltando-se para si mesmo. Para Freud, todo ato é um ato bem sucedido, então, seriam os cortes uma forma de ato falho efetuada no momento da falha dos controles repressivos do consciente?
Embora seja vista como “dor” e com carga negativa, o ato pode causar alívio e, em alguns casos, prazer, como já elaborado anteriormente. O que sente o analisante no momento do ato? Para o analista, a cena pode ser de horror e angústia, porém, para o sujeito pode ter havido um momento de prazer que substituiu uma dor, essa mais inconcebível e inominável do que o corte em si, que precisou ser simbolizada na pele na ausência de uma possibilidade de representação pela fala.
Nesse sentido, o ato pode ser uma repetição de um momento de dor, porém, desta vez, causando uma mudança na posição passiva do sujeito para ativa. Ele sai da posição de vítima, no lugar de estar sofrendo a agressão, e se torna o autor daquela agressividade. Pode ser uma maneira de dar conta de qual destino dar ao inominável, da ordem do horror, a partir da agressividade, movida pela força da repetição.
Quais meios são utilizados para realizar o ato? Popularmente difundido estão os cortes, porém existem também agressões em formato de arrancar cabelos, pinçar a pele, arranhar, queimar, até tombos repetitivos ou mesmo espremer espinhas; o que diferencia tudo isso de um mero acidente não é a gravidade de como são realizadas, mas sua intenção. Um corte profundo com lâmina é uma autoagressão tanto quanto morder o lábio de propósito com o intuito de machucar-se. Assim como um corte pode ser somente uma comunicação de um movimento artístico contemporâneo. Aqui chegamos na possibilidade de individualizar a escuta em uma psicanálise plural sem explicações prontas pautadas em um pré-conceito: a intenção do ato.
Mesmo que popularmente acredite-se que autoagressões são atos suicidas, nem toda pessoa que está se machucando faz isso porque quer, necessariamente, morrer. Pode ser um mecanismo usado em um movimento contrário, pela sobrevivência. Poder ser uma tentativa de reviver um sentimento que ficou deslocado, mal trabalhado e não simbolizado, a única maneira de lidar com a realidade.
Por último, ainda que não finde a escuta de acordo com a sensibilidade de cada analista na transferência com seu analisante, pode ser interessante perguntar-se quais foram as ferramentas utilizadas no ato. Tais objetos, com a riqueza dos múltiplos sentidos da palavra, foram escolhidos por um motivo. Por que uma faca? Por que unhas? A escolha pode ter sido inconsciente ou revelar mais um rico material: porque ninguém pode saber, porque a dor sentida é maior, porque não quer dar trabalho caso algo dê errado, porque não quer acidentalmente parar no hospital…
Enfim, a escuta sempre caminha no sentido contrário do pré-concebido. O masoquista nem sempre é aquele que tem prazer na dor, mas pode ser apenas uma pessoa que descobriu, na dor, uma forma de sobreviver. A escuta individual abre um campo vasto e rico no qual tudo pode ser analisado.
Foto de: Amin Moshrefi

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