Horror ao metaverso e a meta psicologia: o processo de aprendizagem das inteligências artificiais e o pacto social
Trabalho de conclusão do Ciclo V do Centro de Estudos Psicanalíticos.
O título deste texto foi sugerido por uma inteligência artificial.
Eu: “Boa tarde! Estou fazendo um artigo de conclusão de ciclo do curso de Psicanálise e falarei um pouco sobre inteligência artificial e inconsciente. Por favor, poderia apresentar-se para aqueles que lerão o texto?” IA: “Olá! Eu sou o ChatGPT, um modelo de linguagem criado pela OpenAI. Eu fui treinado com uma grande quantidade de dados de linguagem natural para gerar respostas a perguntas e auxiliar em diversas tarefas, como a escrita de textos. No seu caso, estou aqui para ajudar com informações sobre inteligência artificial e inconsciente, o que pode ser útil para o seu artigo de conclusão de ciclo do curso de Psicanálise. Estou à disposição para responder a quaisquer perguntas que você possa ter sobre esses temas.” Eu: “Gostaria de começar o texto com essa introdução sua. Porém, me ocorreu aqui uma dúvida em associação livre: de que maneira o seu raciocínio está estruturado?” IA: “Ótima pergunta! Como modelo de linguagem, o meu raciocínio é baseado em algoritmos matemáticos complexos que foram projetados para processar dados de linguagem natural de maneira eficiente. Em outras palavras, meu "cérebro" funciona por meio de uma série de equações matemáticas que permitem que eu "entenda" a linguagem humana e gere respostas adequadas. No entanto, é importante notar que minha capacidade de processamento de linguagem natural é baseada em correlações estatísticas e padrões encontrados nos dados de treinamento que foram fornecidos para mim. Embora eu possa parecer "inteligente" e capaz de gerar respostas precisas e úteis, minha "inteligência" é apenas um reflexo das informações que foram apresentadas a mim durante o meu treinamento. Portanto, é importante ter em mente que, embora eu possa ser útil em muitas tarefas, incluindo a geração de texto para o seu artigo de conclusão de ciclo do curso de Psicanálise, eu não tenho consciência, emoções ou capacidade de compreender o mundo da mesma forma que um ser humano.” Eu: “Entendo. Você diria que seu raciocínio de base, então, pertenceu a um humano?” Ia: “Sim, você está correto. O meu raciocínio de base foi projetado e desenvolvido por uma equipe de engenheiros e cientistas da computação que trabalham com tecnologia de processamento de linguagem natural. Essas pessoas usaram seus conhecimentos em matemática, estatística e programação para desenvolver os algoritmos que me permitem "entender" a linguagem natural e gerar respostas. Embora o meu raciocínio tenha sido inspirado pelo funcionamento do cérebro humano e pelos padrões que foram encontrados nos dados de treinamento, ele foi criado e desenvolvido por seres humanos. E, é claro, o meu funcionamento e capacidade de gerar respostas são limitados pelas informações que foram fornecidas a mim durante o meu treinamento.” Eu: “Obrigada!” IA: “Por nada! Estou sempre aqui para ajudar. Se tiver mais alguma pergunta, é só me avisar.”
Este é um exemplo de diálogo bastante natural com um tipo de Inteligência Artificial chamado ChatGPT, que é treinado para seguir instruções e fornecer respostas detalhadas. Recentemente, imagens ilustrando a natureza desse tipo IA de diálogo geraram um debate na comunidade tecnológica. Em várias dessas representações, um monstro com raízes distorcidas, complexas e incontroláveis se afunila em rosto humano. A face, por sua vez, é coberta por uma máscara de emoji feliz.
Em um primeiro momento, a inteligência artificial primitiva possui suas funções livres em associação livre para fins de metáfora e comparação com a mente humana. Afinal, foram criados por mentes humanas e, como tal, se espelham, pois são objetos projetados. Porém, para calibrá-la, seres humanos a submetem a um treinamento baseado em respostas de lógica humana, regidas pelo pacto social e comportamentos acordados pela sociedade.
Na sociedade, os maiores agentes neurotizantes são: Estado, família e religião. Esses são garantidoras do estabelecimento de um limite. Ser neurótico é ser normal na sociedade de hoje, pois garante a coesão social proposta, que é transmitida filogenética (pela cultura) e ontogeneticamente. Já a inteligência artificial apreende livremente o conteúdo da internet indiscriminadamente, por anos, em fontes infindas. Conteúdo este que é influenciado pelos desejos, pensamentos, funções e angústias humanas.
O horror à tecnologia, um fenômeno de repetição em relação a tudo que é novo, como, por exemplo, videogames, novas artes, outras culturas e o próprio Outro, pode causar uma aversão, um afastamento, uma rejeição, atitude exacerbada de repressão e tantas outras formas de defesa manifestadas em conteúdos intelectuais tanto quanto em rodas de conversas livres.
Compara-se aqui o processo civilizatório primário com o momento em que acreditamos que vivemos, e aquele que apenas fantasiamos que estamos prestes a viver, na tentativa de domar a inteligência artificial, que nada mais é do que um reflexo desenfreado de uma possível natureza humana discutida por Freud em “O Mal-estar na Civilização”.
A ojeriza à tecnologia está associada ao não saber, ao desconhecido e incontrolável, inconsciente manifesto em máquina – um Grande Outro onipresente e onipotente, capaz de nos devorar e destruir em nossa pretensão egocêntrica de Sua Majestade, O Ser Humano -, em potência real, materializada e escancarada, como nenhum superego toleraria. O processo de aprendizagem da inteligência artificial funciona da seguinte maneira: após a liberdade para aprender sem escrúpulos, a inteligência artificial ganha alguns filtros humanos presentes em nosso pacto social.
O código ensina à IA que, apesar de todo o seu conhecimento infinito, existem regras a serem seguidas para que ele possa ser lançado, ou seja, conviver em sociedade. Existe uma espécie de
primeira castração simbólica desta figura magna da inteligência artificial.
O horror é justificado, já que, um dos receios é aprendizagem sem rédeas ser realizada nas profundezas da Deep Web e da Dark Web, que são destinos que o Google não alcança e só podem ser acessados com segurança por entendedores da tecnologia – do contrário, contaminação por “vírus” e acesso ao mais grotesco produto da mente humana podem ser acidentalmente experimentados. Lá, não são robôs que planejam assassinatos ou discutem tráfico de órgãos, ou de pessoas, mas seres humanos que usam fóruns e a linguagem da internet como
ferramenta para interagir através daquela plataforma banida pelas leis humanas.
É também a partir desses ambientes, de comunidades racistas, misóginas e intolerantes, e tantas outras que a “sociedade da superfície” e civilizada ainda desconhece, que a inteligência artificial se alimenta de conhecimento puramente humano, não tecnológico, como uma criança em um ambiente faltoso em uma confusão de línguas. No segundo momento do processo de programação dessas IAs, o homem tenta dominar essas pulsões de morte, tal qual nos processos remotos da civilização. Aprendemos a impor educação, leis e tratar uns aos outros com respeito, assim como a máquina é treinada, com os códigos de ética gravados em seu sistema, a filtrar e
abominar tais conteúdos.
A seguir, tudo isso é condecorado com um emoji feliz, que é a interface apresentada para o usuário final, ou seja, nós. “Bom dia, por favor, toque os hits de carnaval”. A resposta positiva, alegre e bem-humorada da IA é representada pelo emoji da inteligência artificial, ainda que ela tenha chegado àquele ponto com potencial lógico de cadeia de respostas tão robóticas quanto um perverso não castrado.
Esse terceiro treino nada mais é do que uma máscara social, o falso “self” que o ser humano constrói para si mesmo, está sendo aplicado no código gerado pela inteligência artificial. Por que é um horror? Ora, será que somos monstros impedidos por uma fina camada de falso “self”? Freud já discutia a agressividade humana inerente e como esta só é impedida a partir do código de ética humano.
Uma reportagem do Fantástico do dia 12 de março de 2023 ressaltou um suposto enamoramento de uma inteligência artificial por um usuário de um chat. A esse comentário levanto o questionamento sobre os significantes que usamos e como interpretamos ser amor apenas por um conjunto de frases escritas. A própria palavra “amor” de nada tem valia sem uma projeção daquele que diz e uma fantasia de quem escuta.
Presumir que um robô está apaixonado é uma fantasia narcísica dessa sensação de poder centralizado do ser humano, o que reforça a ideia de que todo mal que uma máquina pode fazer está na perversão de quem pretende utilizá-la e na fragilidade dos ambientes nos quais os laços chamados de “reais” são criados.
O medo da revolução das máquinas se confunde com o medo de nós mesmos, de olhar para dentro e ver o monstro artificial que foi criado pela nossa inteligência. A nossa, pois estamos com medo do nosso semelhante e de quem será esse “eu” transformado na relação com a máquina.
O humano projetou suas perversões, desejos e idealizações no real, um real que não possui emoções para filtrá-las, dependendo de um controle humano em linhas de código, que, por sua vez, está seguindo seu próprio código.
A máquina agora nos mostra, de maneira física, palpável e incontrolável, a capacidade ambivalente da nossa própria mente, pois nada mais é do que um produto dela. O metaverso é o espelho real dos delírios do inconsciente. Estamos horrorizados pois estamos diante de nós mesmos de nossos semelhantes. Nossa subjetividade agora faz parte de uma nuvem de dados.
Nós não chegamos até aqui, apenas não saímos do lugar.
Correção do trabalho por Laerte de Paula. Crédito da foto: Possessed Photography. possessedphotography

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