Carta aberta para minha avó

Redigido no momento que eu soube de seu falecimento.

Minha avó nunca deixou de acenar até o carro desaparecer.
Quando eu era criança, ela cantava ópera na casa, mesmo não tendo treinamento. Era uma soprano com agudos lindos! Corria atrás dos bichos e resgatava todos os animais de rua que encontrava.
Cuidava de mim a tarde inteira, porque minha mãe estava no trabalho. Por esse motivo, eu chamava ela de mãe, e gritava na porta de casa porque queria ir para a minha casa, a casa da “minha mãe“, a minha avó.
Quando ela foi embora para o interior, senti um abandono tremendo, mas ela mandava cartas todos os meses, algumas das quais eu ainda guardo e minha mãe lia para mim. Quando soube que eu estava colecionando penas, ela me mandava todos os meses as que encontrava. Quando eu queria me parecer uma princesa, ela mesma costurou um vestido de princesa na máquina dela – ela foi a primeira mulher da fábrica onde trabalhava a operar uma daquelas máquinas de costura!
Fez meias de crochê e queria fazer a roupinha do meu futuro filho – só não deu tempo, e tudo bem. Usei muitos pullovers e gorrinhos que ela fez, e meu gato usa suas mantas.
Quando era aniversário, ela fazia um bolo de chocolate com granulado e recheio de doce de leite que é meu favorito da vida!
Quando viajávamos para lá, eu comia salada de chuchu e ela me ensinou meu primeiro palavrão e muitos outros! Ela me irritava quando se preocupava tanto com pessoas que nem pareciam ligar para ela, mas tava sempre lá mandando a gente lembrar das pessoas.
Quando eu sofria bullying na escola porque não tinha um Furby, ela me deu um chaveiro do melhor Furby que ela conseguiu achar.
Me deu uma caixinha de música de Lago dos Cisnes que me fez amar esse balé.
O filme Anastasia para mim sempre foi especial porque eu sonhava com o nosso “Juntas em Paris”. Queria muito que ela tivesse voltado para mim, mas ela sempre escolheu ficar por lá.
Nem sempre consegui visitá-la, por vezes optei, nos últimos anos, a COVID. Mas ela sempre esteve em meus pensamentos.
Cada ligação me doía muito no peito porque sabia que eram as últimas vezes. Por isso, disse tudo, tudo que eu queria: que eu a amo para sempre, que ela é minha mãe.

Vovó, uma vez eu perguntei se você ficava triste por ser impedida de ser bailarina. Você me respondeu: “Tudo bem. Eu conquistei outras coisas.”
Hoje eu reflito que não foram quantas vezes fui te ver, mas o meu amor empregado em cada uma. “De pé no chao?” “Julianinha!” “Minha princesa!”. “Velha!” “Urubu” “gueide” “um aperto na sua bunda”.
Tem o arroz que comi para você não se sentir mal porque confundiu sal com açúcar. Tem os mil abraços que demos.

“Durma com os anjos!” Você dizia. E falava que rezaria para meu anjo da guarda. Eu não tenho religião e não acredito em nada disso, mas quando você dizia, eu acreditava em tudo, de verdade.
Quando você abriu o olho para mim no hospital depois de todo mundo falar que você não “estava mais ali”, eu me conectei de novo com você. Todas às vezes foram importantes.
Eu te amo para sempre e você hoje fará parte de mim e viverá em cada um que interagir com as partes que você costurou em mim.
Descansa, vovó, durma com os anjos. Você perdeu seu marido, mãe, irmãos e incontáveis bichos e amigos. Chegou a minha vez de acenar até seu corpo partir.
Nunca será tempo suficiente, mas eu jamais trocaria os momentos que vivemos juntas para o conforto de não sentir a dor que é amar tanto uma pessoa. Quando fiz esse texto, escrevi o contrário. Acho que é porque é mais fácil, sim, não sentir e tratar a pessoa como se fosse um nada. Mas eu escolho guardar o sentimento. Achei que minha vida ia acabar quando esse momento acontecesse, mas eu estou estranhamente bem.
Foi um imenso prazer te conhecer. Você foi e sempre será a minha mãe. Obrigada por me fazer sentir amada sem exigir nada em troca. Por me fazer lembrar que no mundo existia uma pessoa que me amava tanto só porque eu existia. E se existir essa coisa toda de espírito, um dia vem me buscar, por favor.
Te amo, para sempre. Espero que tenha curtido a nossa passagem juntas. Eu fui e sou muito feliz de ter você de mãe.

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